Artigos não definem quem somos!

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Sejam bem-vindas,  

Sejam bem-vindos,  

Sejam bem-vindEs! 

Era assim que começavam todas as palestras da II Conferência SSEX BBOX – Sexualidade Fora da Caixa. Nunca estive tão acostumado com essa provocação, inclusive me dou conta da importância em forçar este estranhamento nas pessoas. Por exemplo, enquanto uma pessoa cisgênera, eu ainda não me deparei com alguém forçando o uso de um artigo para me definir, senão pela forma com eu me identifico. Resolvi tocar neste assunto, porque, recentemente, tivemos a difícil tarefa de traduzir o site do NOW para o português e para o espanhol. Ambas as línguas não possuem muitas formas em que o gênero das palavras seja neutralizado.
Se quiséssemos trazer a neutralidade ao português, precisaríamos revolucionar a línguagem e começar a usar uma inflexão não-ortográfica grifando a possibilidade de neutralizar as palavras. Sejam bem-vindEs seria uma dessas formas, uma vez que compreenderia homens, mulheres e pessoas não-binárias (que preferem nem serem tratadas pelo gênero masculino nem feminino) na mesma expressão. Ainda, nesta mesma situação, eu poderia estar desejando boas-vindas para uma plateia de 1000 pessoas, onde 999 sejam mulheres e exista apenas 1 homem entre elas. Gramaticalmente, eu deveria nesse caso falar bem-vindOs, porque expressamos o plural no português com o masculino.
Falamos os homens, quando queremos nos referir a espécie humana, os brasileiros, quando queremos dizer brasileiros e brasileiras, os participantes, quando queremos incluir homens e mulheres, e assim por diante. Isso porque culturalmente fomos treinados a entender que no uso dos artigos masculinos também estão compreendidos os elementos femininos.
O NOW se preocupa com essa hipervalorização e sobreposição do masculino, pois isso retoma uma história de normatização e desvalorização do feminino – veja só! até aqui quando trato genericamente o termo preciso escrevê-lo no masculino. Assim, buscamos utilizar expressões e palavras neutras para comunicar da maneira mais inclusiva e amorosa a todes. Não vejo algum problema em utilizar dessas inflexões não-oficiais para escrever ou falar, entretanto, reconheço que nem todas as pessoas compreendem estes códigos e, sobretudo, a discussão de gênero. 

Talvez, as pessoas não reconheçam aqui a minha contestação destes padrões que muitas vezes, mas muitas vezes mesmo, reprimem e violentam a expressão de gênero das minorias.

Outros recursos, também, podem ser utilizados para tornar o português menos sexista. Por exemplo, eu poderia utilizar @ para comunicar a tod@s que os artigos “o” e “a” se unem neste signo. Até mesmo, utilizar o X para compreender todxs nas opções deste uso. 
Percebam que essas formas substituem prezadas (os) leitoras (es) e a primazia da ordem de importância de um gênero sobre o outro. Infelizmente, as sugestões citadas não são tão inclusivas como parecem, pois elas não são do conhecimento de todo mundo; não oferecem uma boa alternativa para a vocalização e também dificultam a leitura de pessoas disléxicas. É bom lembrar que muitos softwares, utilizados na inclusão de pessoas com deficiência visual, não sabem marcar essas variações e passam a não pronunciar as palavras quando grafadas desta forma.
Por uma posição ética e pelo compromisso de não reforçar preconceitos e a exclusão sociocultural, tomamos a decisão de incluir nas traduções do site do NOW, bem como no Blog este conteúdo. Ademais, refletir na “influência da cultura sobre a linguagem”, que segundo Mikhail Bakhtim, se relaciona da mesma forma “com a ação da linguagem sobre o desenvolvimento da cultura”. Ou seja, a cultura influencia a forma como escrevemos como a forma que escrevemos influencia na cultura em que vivemos. 

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Rodrigo Azambuja é membro das equipe de NOW na America Latina